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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Candido: Eça entre a cidade e o campo





ENTRE CAMPO E CIDADE

O desacato é a condição do progresso...
Quem respeita decai. (João da Ega)

Observada no conjunto, mesmo de maneira superficial, a obra de Eça de Queirós se apresenta em grande parte como diálogo entre campo e cidade – ora predominando a nota urbana, ora fazendo-se ouvir mais forte a nota rural. Numa sociedade européia do século IXI, como a portuguesa, cidade deveria significar vida moderna, intercâmbios sociais intensos, participação na civilização capitalista do Ocidente. Campo significaria tradicionalismo, economia agrária, sentido paternal nas relações entre as classes. De um lado, o banqueiro, o cientista, o técnico, o pelintra: Cohen, Julião, Jorge, Basílio. De outro, o senhor morgado, o agricultor, o apaniguado, o caseiro: Gonçalo Ramires, Zé Fernandes, o Pereira “Brasileiro”, José Casco, Melchior.
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Nos Primeiros livros sentimos predominar a visão urbana da vida, mesmo quando o tema é rural ou semi-rural. (…)
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Nos primeiros livros, o seu ponto de vista é o de um homem da cidade, dum crente na cultura urbana do tempo. (…)
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Não obstante essa visão unilateral – e quem sabe devido a ela, – O crime do padre Amaro é um excelente livro, menos esquemático e caricatural do que outros do autor. Lembra certos quadros de Goya, feitos de preto, cinza, amarelo e escarlate (...)
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O colaborador d' As farpas – para quem a salvação do país estava na introdução do progresso técnico e científico, na liquidação do paternalismo agrário – começara a deixar-se invadir pela sedução do velho Portugal. Os seus romances irão revelando, pouco a pouco, um abandono do ponto de vista urbanista em proveito do sentimento rural; em proveito daquele mesmo passado que ele a princípio renegou integralmente.
Os Maias exprimem com nitidez este recuo ideológico. (…)
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De tal maneira foi se acentuando em Eça de Queirós a convicção das excelências do campo como formador de homens e reserva tradicional do caráter português, que o seu próximo livro, para muitos a sua obra-prima, será um romance rural. A ilustre casa de Ramires é o anti-Basílio. Embora os Ramires andem decadentes (pois acompanham a curva das vicissitudes do Reino), é na tradição por eles formada que o seu último rebento vai encontrar energia para obstar à decomposição do próprio caráter e afirmar uma superioridade cheia de orgulho de estirpe. Verifica-se, então, um fato da maior importância para interpretar o nosso romancista: parece que ao encontrar-se plenamente com a tradição do seu país, ao realizar um romance plenamente integrado no ambiente básico da civilização portuguesa (a quinta, o campo, a freguesia, a aldeia, a pequena cidade: Santa Irenéia, Bravais, Vila Clara, Oliveira); parece que só então Eça de Queirós conseguiu produzir um personagem dramático e realmente complexo: Gonçalo Mendes Ramires. Parece que só então pôde libertar-se da tendência caricatural e da simplificação excessiva dos traços psicológicos.
Na Ilustre casa de Ramires o romancista se comporta como homem do campo. A cidade de Oliveira é vista sob o ângulo da Torre e não, como a Leiria do Padre Amaro, do ângulo de Lisboa.
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A cidade e as serras vai ainda mais longe, a ponto de romper o equilíbrio conseguido n' A ilustre casa, e é uma espécie de anti-Maias, como o segundo é um anti-Basílio.
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Para o nosso intuito, porém, interessa principalmente o valor de sintoma d'A cidade e as serras, isto é, o seu significado de integração na convenção bucólica e a busca de um sentido mais harmonioso na existência campestre. As vidas dos santos, principalmente a de São Cristóvão, importam mesmo motivo. Note-se, aliás, que em Eça de Queirós o ruralismo e mesmo o tradicionalismo vieram corresponder a tendências literárias acentuadas, quais sejam o sentimento plástico e o talento descritivo. O campo sempre foi oportunidade para algumas das suas melhores descrições e ambientes mais sugestivos, a ponto de o sentirmos maio aprisionado em obras como O primo Basílio, onde a atmosfera urbana e a densidade das relações não lhe permitem maior desafogo. Os seus livros precisam respirar, e não sossegam enquanto não encontram uma nesga de natureza, por menor que seja, – como a paisagem ribeirinha que Afonso desfrutava do Ramalhete, espremida entre dois prédios altos (...)” Antonio Candido, Tese e antítese, p.39-59

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