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sábado, 18 de dezembro de 2010

FAUSTO 2


 O POETA


E não sentis quão torpe é tal ofício?
Quão pouco digno é do genuíno artista?
Vejo que da ralé o mísero artifício,
Convosco, como axioma se registra.


O DIRETOR


Tal repreensão pouco me ofende:
Quem o êxito maior pretende,
Escolhe os instrumentos; é só ver
Quão mole é a linha que deveis fender.
Pensai: escreveis para quem?
Se enfado impele a esse, outro vem
Da lauta ceia, farto por demais;
Pior que tudo, acho, porém,
Mais de um vir da leitura dos jornais.
Acodem cá, tal como às mascaradas,
Curiosidade, só, aguça-lhes o intuito;
Exibem-se à platéia as damas adornadas,
Dando espetáculo gratuito.
Que sonhas, poeta? do alto a quem acenas?
A sala cheia a júbilo te induz?
Olha de perto os tais Mecenas!
São semifrios, semicrus.
Corre esse, findo o teatro, ao jogo de baralho,
A amores vis, aquele, e a excitações confusas;
Convém por tal, pobre paspalho,
Atormentar as meigas Musas?
Eu digo-vos, dai mais, dai mais, e sempre mais,
E nunca haveis de errar o intento;
Basta que os homens aturdais,
Árduo é lidar a seu contento...
Que te acontece? é êxtase, ou é dor?


J.W.Goethe, Fausto, p. 31

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