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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A JANGADA DE PEDRA 1



"Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se. (...)

"Por esses mesmos dias, talvez antes, talvez depois de ter Joana Carda riscado o chão com a vara de negrilho, andava um homem a passear na praia, era isto ao entardecer, quando o rumor das ondas mal se ouve, breve e contido como um suspiro sem pausa, e esse homem, que mais tarde dirá chamar-se Joaquim Sassa, ia caminhando acima da linha da maré que distingue as areias secas da areia molhada, e de vez quando baixava-se para apanhar uma concha, uma pinça de caranguejo, um fio de alga verde, não é raro gastarmos assim o tempo, este passeante solitário se estava gastando assim. Como não leva bolsos nem saca para guardas os achados, devolvia à água os restos mortos quando as mãos cheias deles, ao mar o que ao mar pertence, a terra que fique com a terra. Mas toda regra leva as suas excepções, e uma pedra que adiante se via, fora do alcance das marés, levantou-a Joaquim Sassa, e era pesada, larga como um disco, irregular, fosse ela das outras, maneirinhas, de contorno liso, daquelas que cabem folgadas entre o polegar e o indicador, e Joaquim Sassa tê-la-ia atirado a rasar a água plana, para a ver saltar, puerilmente feliz com a própria destreza, e enfim mergulhar, já perdido o impulso, pedra que parecera ter o destino traçado, ressequida de sol, molhada só da chuva, e afinal mergulhando na escura profundidade para esperar um milhão de anos, até que este mar se evapore, ou recuando a faça regressar à terra por outro milhão de anos, dando ao tempo tempo de descer à praia outro Joaquim Sassa, que sem saber repetirá o gesto e o movimento, nenhum homem diga, Não farei, segura e firme não está nenhuma pedra. (...) Joaquim Sassa segura uma pedra, tão, pesada que já as mãos lhe cansam, o vento sopra frio e o sol mergulhou metade, nem gaivotas voam sobre as águas. Joaquim Sassa atirou a pedra, contava que ela caísse distante poucos passos, pouco mais que a seus pés, cada um de nós tem a obrigação de conhecer as pŕoprias forças, nem havia ali testemunhas que se rissem do frustrado discóbolo, ele é que estava preparado para rir-se de si mesmo, mas não veio a ser como cuidava, escura e pesada a pedra subiu ao mar, desceu e bateu na água de chapa, com o choque tornou a subir, em grande voo ou salto, e outra vez baixou, e subiu, enfim, afundou-se ao largo, (...)

"Diria Pedro Orce, se tanto ousasse, que a causa de tremer a terra foi ter batido com os pés no chão quando se levantou da cadeira, forte presunção sua, se não nossa, que levianamente estamos duvidando, se cada pessoa deixa no mundo ao menos um sinal, este poderia ser o de Pedro Orce, por isso declara, Pus os pés no chão e a terra tremeu (...)

"Na manhã do dia seguinte, um atravessa uma planície inculta, de mato e lamaçais alagadiços, ia por carreiros e caminhos entre árvores, altas como o nome que lhes foi dado, choupos e freixos chamadas, e moitas de tamargas, com o seu cheiro africano, este homem não poderia ter escolhido maior solidão e mais subido céu, e por cima dele, voando com inaudito estrépito, acompanhava-o um bando de estorninhos, tantos que faziam uma nuvem escura e enorme, como de tempestade. Quando ele parava, os estorninhos ficavam a voar em círculo e desciam fragorosamente sobre uma árvore, desapareciam entre os ramos,  e a folhagem toda estremecia, a copa ressoava de sons ásperos, violentos, parecia que dentro dela se travava ferocíssima batalha. Recomeçava a andar José Ainaço, era este o seu nome, e os estorninhos levantavam-se de rompão, todos aos mesmo tempo, vruuuuuuuuuu. (...)

"E agora esta mulher, Maria Guavaira lhe chamam, estranho nome embora não gerúndio, que subiu ao sótão da casa e encontrou um pé-de-meia velho, dos antigos e verdadeiros que serviam para guardar dinheiro tão bem como uma casa-forte, simbólicos pecúlios, graciosas poupanças, e achando-o vazio pôs-se a desfazer-lhes as malhas, por desfastio de quem não tem outra coisa em que ocupar as mãos. Passou uma hora e outra e outra, e o longo fio de lã azul não para de cair, porém o pé-de-meia parece não diminuir de tamanho, não bastavam os quatro enigmas já falados, este nos demonstra que, ao menos uma vez, o conteúdo pode ser maior que o continente. A esta casa silenciosa não chega o rumor das ondas do mar, de passagem aves a sombra não escurece a janela, cães haverá mas não ladram, a terra, se tremeu, não treme. Aos pés da desenredadeira o fio é a montanha que vai crescendo. Maria Guavaira não se chama Ariadne, com este fio não sairemos do labirinto, acaso com ele conseguiremos enfim perder-nos. A ponta, onde está".

JOSÉ SARAMAGO, A Jangada de pedra.

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