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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sobre o Orientalismo, de Said.


São Roque de Minas-MG, onde o Rio São Francisco começa a constrtuir muitas cidades.  Existe uma espécie de similaridade entre as trajetórias antropológicas para as construções dos mitos do Oriente e o do Sertão. Na verdade, parece que Said trata o orientalismo como um semimito. Essa possível aproximação, que antevejo na perspectiva teórica, poderia ser revelada por alguns aspectos que passo a relatar. Antes de tudo me lembro de um texto de Câmara Cascudo, creio que Cultura e Civilização, em que o autor provocava o leitor, questionando-o se já havia pensado em quanta coisa havia acontecido entre a pré-história e a história. Nos nossos livros de História, um ou outro capítulo é dedicado à Antiguidade Oriental ou Civilizações Orientais, quase sugerindo que teriam tido lugar nesse período de transição para o verdadeiro início da Civilização: a Grécia. A partir daí a História é contada do ponto de vista do Ocidente, primeiro vencedor. Quase uma usurpação, se considerarmos que a Grécia tem lugar a leste de Greenwich, ou a antecipação da arbitrariedade, que inclusive seria reinventada dois mil anos depois, renascida. Para começar, lembro a referência feita por Said, em que pede que levemos a sério a observação de Vico, de que os homens fazem sua história, esclarecendo que as coisas assim feitas, as construções culturais, a história e a geografia, são criações humanas; depois, que essas construções assumem estruturas de discurso, deixando claro o seu caráter de disputa por poder entre as pessoas e povos e de imposição de uma determinada posição hegemônica, agora Said citando Gramsci; coincidente também é o fato de as construções (do Oriente e do Sertão) terem base ideológica, certamente, mas também literária, apesar de que, pelo menos nas suas origens, no primeiro caso, acredito, mais ideológico que literário; o inverso acontecendo com o sertão. Neste último ponto, destaco, do lado do orientalismo: Joseph Ernest Renan (1823-1892), filósofo, principalmente; do nosso lado, José Martiniano de Alencar (1829-1877), ficcionista, principalmente. Sigo esse caminho, mas, para ser fiel a Said, devo dizer que ele afirma com todas as letras que o orientalismo de que ele nos fala pode acomodar Ésquilo (c. 525/524 a.C.-456/455 a.C.), Dante (1265-1321), Shakespeare (1564-1616), Silvestre de Sacy (1758-1838), Victor Hugo (1802-1885), Gustave Flaubert (1821-1880) e Karl Marx (1818-1883). Mais ideologia e mais literatura. O sertão poderia acomodar Caminha (1450-1500), Taunay (1843-1899), Euclides (1866-1909), Capistrano (1853-1927), Graciliano (1892-1953), Mário (1893-1945), Arinos (1905-1990) e Rosa (1908-1967)? Considero Mário de Andrade e João Guimarães Rosa casos muito especiais. Muito mais literatura. Talvez pelo fato de Ingleses e Franceses e depois americanos e muitos outros já saberem quem eles eram e o que queriam, nos impuseram seus seres quereres. Se antecipássemos Viana Moog, eu repetiria que os irlandeses e ingleses se mudaram para os USA e, porque sabiam o que queriam, expulsaram os nativos moradores, em alguns casos, ou usurparam ou compraram território, em outros. A consciência da vontade dos povos nativos talvez seja inquestionável, mas não incluía serem expulsos de suas terras, ou se mudarem para o sul da Grã-Bretanha. Voltando às aproximações, outro construtor do orientalismo, para Said, é Nerval (1808-1855). Gérard Labrunie foi poeta e romântico, como o nosso Alencar, “irmão” de Mário de Andrade. Aliás, para Said, se deixarmos a perspectiva da abordagem geral para adotar aquela de analisar as participações individuais no constructo semimítico do Oriente, os pioneiros seriam William Jones, Nerval e Gustave Flaubert. O primeiro um grande filólogo; os outros dois, grandes artistas. No caso do sertão, teríamos que mencionar como pioneiros o Amanuense português e uma legião de viajantes, além de Alencar. Os viajantes, quase todos europeus, e teríamos que incluir aí C. Lévi-Strauss (1908-2009), que considerou Goiânia (que visitou em 1937) uma “cidade arbitrária”, construída no meio do nada. Vou tentar traduzir a passagem (sem trocadilho) de Tristes trópicos: “Eu visitei Goiânia em 1937. Uma planície sem fim, que era terreno baldio e campo de batalha, riscada de postes de energia elétrica e de estacas de construção, deixava ver uma centena de casas novas nos quatro cantos do horizonte. A mais importante era o Hotel, construído em cimento e paralelepípedo no centro desse achatamento, evocava um hangar ou um forte; ele teria o maior prazer em ser chamado “bastião da civilização” em um sentido não figurado, mas direto, que assumia um valor especialmente irônico. Porque nada poderia ser tão bárbaro, tão desumano que manter esse conceito no deserto. Este edifício sem graça era o contrário da Cidade de Goiás; sem história, sem tempo, sem costumes, não se tinha suavizado o branco nem abrandado a aridez. Sentia-se ali como se se estivesse em uma estação ou em um hospital: sempre passageiro e jamais residente. Só o medo de uma catástrofe poderia justificar essa fortaleza. Ele estava construído de tal forma que o silêncio e a imobilidade reinantes prolongavam a ameaça. Cádmus, o civilizador, havia semeado os dentes do dragão”.

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